UM GUIA PARA APLICAÇÃO PRÁTICA

Psicofármacos e prática psicológica

Conceitos essenciais para atuação segura e comunicação qualificada no cuidado integrado

Autora: Erica Maia Alvarez
Médica Psiquiatra | CRM SP 164868 | RQE 64704

© 2026 E2A Produções. Todos os direitos reservados.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocópia, gravação ou outros métodos eletrônicos ou mecânicos, sem a prévia autorização por escrito do autor, exceto no caso de citações breves incorporadas em críticas e determinados outros usos não comerciais permitidos pela lei de direitos autorais.

ℹ️ Nota sobre consultoria e responsabilidade

Este conteúdo foi desenvolvido especificamente para profissionais de psicologia e deve ser utilizado exclusivamente para fins educacionais e de aprimoramento profissional.

Para garantir alinhamento interdisciplinar, este e-book contou com a consultoria da psicóloga Aline Boiças Prieto CRP 06/149782, responsável por revisar e contribuir com a adequação dos conteúdos sob a ótica da prática psicológica. As informações relacionadas à prescrição e manejo medicamentoso são de responsabilidade exclusiva da autora, médica psiquiatra.

É importante destacar que a classificação mais atualizada dos psicofármacos, segundo o consenso internacional, está migrando para a Neuroscience-based Nomenclature (NbN), que classifica os medicamentos primariamente pelo mecanismo de ação molecular e não apenas pela indicação clínica.

📚 Público-alvo

Psicólogas que trabalham com adultos e estudantes de psicologia

🔬 Escopo

Medicamentos mais amplamente utilizados na prática clínica

🎯 Objetivo

Compreensão prática sem excessivo tecnicismo

Quem é Erica Maia Alvarez?

Dra. Erica Maia Alvarez

Sou médica psiquiatra (CRM 164868 | RQE 64704), com mais de 10 anos de experiência em prática clínica, gestão em saúde e liderança em saúde mental. Minha formação inclui formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), além de atuação em supervisão clínica, consultoria psiquiátrica forense e apoio técnico em contextos jurídicos.

Ao longo da minha trajetória, atuei com psiquiatria hospitalar e de urgência/emergência, no cuidado a transtornos graves, dependências e situações de crise, além de desenvolver programas de saúde mental corporativa e consultoria estratégica para serviços de saúde.

Também busquei ampliar minha visão sistêmica do cuidado com um MBA Executivo em Administração em Saúde (FGV) e pós-graduação em Direito e Saúde (Einstein), integrando clínica, ética, gestão e segurança jurídica na tomada de decisões.

Mas, acima de tudo, sou médica de consultório. Atendo pacientes todos os dias e continuo atendendo. Este livro nasce da prática real, da escuta cotidiana e do trabalho lado a lado com outros profissionais de saúde mental. Acredito profundamente na construção de redes de cuidado e na parceria com psicólogos, com diálogo, corresponsabilidade e encaminhamentos qualificados sempre que necessário.

O paciente é — e sempre será — o centro de tudo. É por ele que estudo, escrevo, ensino… e sigo presente na clínica. Até quando Deus permitir, estarei ali.

01

O papel do psicólogo no tratamento farmacológico

Compreendendo limites e potencialidades

Como psicólogo, você não prescreve medicamentos. Mas sua atuação é fundamental para o sucesso do tratamento farmacológico. A diferença entre um paciente que adere ao tratamento e outro que abandona frequentemente está na qualidade do suporte psicológico que recebe.

Este guia foi desenvolvido para ajudá-lo a navegar o território da psicofarmacologia com confiança, sem ultrapassar limites éticos, mas aproveitando ao máximo seu papel único no cuidado integral ao paciente.

✗ Você não deve:

  • Prescrever, ajustar doses ou recomendar medicamentos específicos (incluindo fitoterápicos)
  • Orientar descontinuação sem envolvimento do psiquiatra
  • Interpretar exames ou avaliar contraindicações médicas.

Seu diferencial estratégico

Você vê o paciente com frequência maior que o psiquiatra. Observa nuances de comportamento, humor e funcionamento que não aparecem em consultas mensais ou bimestrais. Esse olhar longitudinal é ouro para ajustes finos no tratamento. Use-o.

Por que eu acredito que psicólogos precisam entender de psicofármacos?

A realidade clínica é que a maioria dos seus pacientes com transtornos mentais moderados a graves estará em uso de medicação psiquiátrica em algum momento do tratamento. Ignorar isso é ignorar uma parte significativa da experiência do paciente.

📊 Dados da prática clínica

Cerca de 50% dos pacientes com transtornos mentais não aderem adequadamente à prescrição. Muitas vezes, esse paciente não conta ao psiquiatra que está pulando doses ou tomando "quando sente necessidade". Mas conta a você. Ou demonstra isso indiretamente no processo terapêutico.

A não adesão está associada a pior evolução clínica, aumento de hospitalizações, maior risco de recaídas e impacto negativo na qualidade de vida. Os principais fatores relacionados incluem falta de insight, atitudes negativas em relação ao tratamento, suporte social insuficiente, estigma, efeitos adversos e complexidade do regime terapêutico.

Quando você entende o básico sobre medicações, consegue fazer as perguntas certas, identificar padrões e facilitar uma comunicação que melhora os resultados para todos.

A integração que funciona

Tratamento integrado não significa concordar com tudo que o psiquiatra faz. Significa compartilhar observações de qualidade que permitam decisões clínicas mais precisas. Veja exemplos:

Caso 1: Observação que faz diferença

Comunicação genérica: "Paciente relata que a medicação não está funcionando."

Comunicação qualificada: "Paciente relata melhora inicial do humor nas primeiras 2 semanas, mas há 10 dias voltou a apresentar anedonia acentuada e ruminação noturna. Coincide temporalmente com período de alta demanda no trabalho. Observo também que paciente menciona 'esquecer' a medicação em finais de semana."

A segunda comunicação permite ao psiquiatra diferenciar: dose insuficiente? não-aderência? estressor ambiental sobrepondo efeito da medicação?

Caso 2: Identificando padrões

Paciente de 28 anos em tratamento para TAG há 6 semanas com escitalopram. Psiquiatra aumentou dose há 2 semanas. Paciente relata em sessão: "estou pior, não aguento mais esses remédios".

Sua investigação revela: Paciente apresenta tremor fino nas mãos (novo), boca seca intensa e náusea matinal. Esses sintomas começaram exatamente 3 dias após aumento de dose.

Sua hipótese informada: Sintomas compatíveis com efeitos colaterais do aumento de dose, não com piora do quadro ansioso. Pode haver espaço para ajuste (redução temporária da dose, mudança de horário, estratégias para náusea).

Resultado: Comunicação ao psiquiatra evita abandono precipitado do tratamento. Ajustes simples resolvem o desconforto.

02

Avaliando a aderência ao tratamento

O olhar atento do psicólogo

A aderência medicamentosa é um desafio silencioso. Estudos indicam que cerca de 50% dos pacientes com transtornos mentais não seguem adequadamente a prescrição, mas essa realidade frequentemente permanece invisível tanto para o prescritor quanto para o psicoterapeuta.

Psicólogos estão em uma posição privilegiada no acompanhamento longitudinal o que os coloca em um lugar estratégico para identificar padrões de não-aderência e facilitar ajustes no tratamento.

Sinais indiretos de não-aderência

Diferentemente do psiquiatra, que pode perguntar diretamente sobre o uso da medicação, você frequentemente capta sinais indiretos:

Linha do tempo: quando esperar resultados

Compreender a cronologia básica de resposta evita interpretações precipitadas. Como regra geral:

Antidepressivos

Antidepressivos (ISRS/ISRN)

Efeitos colaterais iniciais: 3-7 dias
Melhora terapêutica esperada: 2-4 semanas
Resposta completa: 6-8 semanas

Se após 8 semanas não há nenhuma melhora, questione aderência antes de questionar o diagnóstico.

Antipsicóticos

Sedação e efeitos motores: Horas a dias
Redução de sintomas positivos: 1-2 semanas
Estabilização completa: 4-6 semanas

Benzodiazepínicos

Efeito ansiolítico: Imediato (30-60 minutos)
Tolerância e dependência: 2-4 semanas de uso contínuo

Perguntas estratégicas

Em vez de confrontar ("Você está tomando a medicação?"), explore:

💬 Caso queira uma investigação mais ativa
  • "Como tem sido sua rotina com as medicações? Conseguiu encaixar nos seus horários?"
  • "Notou alguma diferença desde que começou/mudou a medicação?"
  • "O que mais te incomoda em relação ao tratamento atual?"
  • "Teve algum dia em que foi difícil tomar alguma medicação?"
Contribuindo para ajustes no tratamento

Sua comunicação com o psiquiatra será mais efetiva se incluir:

Observações comportamentais concretas

Evite: "Paciente queixa-se da medicação"

Prefira: "Paciente relata sonolência intensa que interfere no trabalho desde início do medicamento X há 3 semanas"

Padrões temporais

Exemplo: "Irritabilidade aumentou 2 semanas após introdução de Y" ajuda a diferenciar efeito paradoxal de progressão do quadro

Impacto funcional

Exemplo: "Tremor fino impede paciente de realizar atividade profissional (design gráfico)" contextualiza a severidade

Fatores psicossociais relevantes

Exemplo: "Paciente demonstra vergonha de tomar medicação em público, o que interfere na aderência no trabalho"

Quando suspender o julgamento

É tentador questionar o diagnóstico ou tratamento psiquiátrico quando não vemos melhora. E isso pode ter um impacto negativo tremendo no vínculo do paciente com o médico e, consequentemente, no sucesso do tratamento. Antes, considere:

  • A aderência real foi verificada?
  • O tempo de tratamento foi suficiente para o mecanismo de ação?
  • Existem fatores ambientais/relacionais mantendo o quadro independentemente da medicação?
  • Há uso de substâncias (incluindo álcool) interferindo na resposta?

Colaboração efetiva

A colaboração entre psicologia e psiquiatria não significa concordar sempre, mas sim compartilhar observações de qualidade que permitam decisões clínicas mais precisas. Seu olhar sobre o funcionamento global do paciente, quando articulado com dados sobre cronologia e padrões, torna-se uma ferramenta poderosa para o cuidado integral.

03

Conceitos básicos de farmacologia

O que o psicólogo precisa saber

Você não precisa dominar farmacologia, mas entender o básico sobre como medicamentos funcionam transforma sua capacidade de interpretar queixas e apoiar o tratamento e a melhora do seu paciente.

A jornada do medicamento no corpo

Compreender como o medicamento se movimenta no organismo ajuda você a interpretar queixas do paciente e comunicá-las adequadamente ao psiquiatra.

1. Absorção (30 minutos a 4 horas)

O que acontece: O medicamento entra na corrente sanguínea após ser ingerido.

O que o paciente pode relatar:

  • "Fico nauseado logo depois de tomar" → Irritação gástrica na absorção
  • "Tomo em jejum porque com comida não faz efeito" → Alguns medicamentos precisam de estômago vazio

Relevância clínica: Se o paciente vomita logo após tomar, pode não estar absorvendo adequadamente.

2. Distribuição (1 a 6 horas)

O que acontece: O medicamento viaja pelo sangue até chegar ao cérebro.

O que o paciente pode relatar:

  • "Sinto que já está fazendo efeito em 1 hora" → Alguns ansiolíticos chegam rápido ao cérebro
  • "Não sinto nada ainda" → Antidepressivos levam mais tempo

Relevância clínica: Ajuda a diferenciar efeito placebo de efeito real.

3. Metabolismo (varia de horas a semanas)

O que acontece: O fígado processa o medicamento. Aqui está o segredo de por que "cada corpo reage diferente".

O que o paciente pode relatar:

  • "Meu irmão toma a mesma dose e não tem esses efeitos" → Variação genética no metabolismo
  • "Desde que comecei outro remédio, esse não faz mais efeito" → Interação medicamentosa

Relevância clínica: Efeitos intensos em doses baixas podem indicar metabolização lenta. Ausência de resposta em doses altas pode ser metabolização rápida.

4. Eliminação (12 horas a 5 dias)

O que acontece: Os rins removem o medicamento do corpo.

O que o paciente pode relatar:

  • "Se eu esqueço um dia, no outro já sinto mal" → Medicamento com eliminação rápida
  • "Esqueci alguns dias e nem percebi diferença" → Eliminação lenta

Relevância clínica: Explica por que alguns pacientes têm síndrome de descontinuação severa e outros não.

Como o medicamento age no cérebro

Entender os principais neurotransmissores ajuda a conectar queixas do paciente com mecanismos de ação:

Serotonina

Regula: Humor, sono, apetite, impulso

Na prática: ISRS aumentam serotonina disponível. Se paciente relata piora da insônia ou mudanças no apetite, pode ser efeito do ajuste serotoninérgico.

Dopamina

Regula: Motivação, prazer, movimento

Na prática: Antipsicóticos bloqueiam dopamina (podem causar apatia). Bupropiona aumenta dopamina (ajuda motivação, mas pode causar agitação).

Noradrenalina

Regula: Alerta, energia, atenção

Na prática: Se paciente está mais "ligado" ou com pressão aumentada, pode ser efeito noradrenérgico. Útil para depressão com fadiga.

GABA

Regula: Relaxamento, redução da ansiedade

Na prática: Benzodiazepínicos aumentam GABA (efeito ansiolítico rápido). Sonolência ou "memória ruim" = efeito GABAérgico excessivo.

Acetilcolina

Regula: Memória, atenção

Na prática: Alguns antidepressivos antigos bloqueiam acetilcolina causando boca seca, constipação, confusão mental em idosos.

Por que a dose começa baixa?

O cérebro precisa de tempo para ajustar seus receptores às mudanças químicas. A titulação gradual permite:

Quando um paciente relata que "o médico disse para começar devagar", isso é sinal de boa prática médica, não de desconfiança na medicação. Se o paciente interpreta isso como "nem o médico confia no remédio", ajude-o a ressignificar essa percepção. Começar baixo e ir devagar demonstra cuidado e personalização do tratamento. É comum o paciente confiar mais no que o psicólogo fala, principalmente se o tratamento começou por ali e somente depois foi ao psiquiatra.

Conectando farmacologia com sua prática
Cenário 1: Expectativas irrealistas

Paciente relata: "O antidepressivo não está fazendo nada" após 1 semana.

Seu conhecimento farmacológico diz: Absorção e distribuição acontecem rapidamente, mas o efeito terapêutico depende de neuroplasticidade (adaptação dos receptores), que leva 2-4 semanas.

Sua intervenção: Normalize essa experiência e encoraje continuidade, explicando a linha do tempo esperada.

Cenário 2: Sonolência excessiva

Paciente relata: Extremamente sonolento após início de antipsicótico.

Seu conhecimento farmacológico diz: Alguns antipsicóticos causam sedação além do efeito principal. É esperado e pode diminuir com tempo ou requerer ajuste.

Sua intervenção: Informe ao psiquiatra a intensidade e o impacto funcional. Pode haver espaço para ajuste de dose ou horário.

Cenário 3: Memória prejudicada

Paciente relata: "Memória ruim" após começar benzodiazepínico.

Seu conhecimento farmacológico diz: GABA em excesso prejudica consolidação de memória. Não é demência, é efeito dose-dependente.

Sua intervenção: Tranquilize o paciente e comunique ao psiquiatra para possível ajuste.

A farmacologia ao seu favor

Você não precisa prescrever, mas entender como e quando os medicamentos agem transforma sua capacidade de apoiar o tratamento integrado. Use esse conhecimento para fazer perguntas melhores, interpretar queixas com mais precisão e colaborar de forma mais efetiva com o psiquiatra.

04

Principais psicofármacos na prática

Entendendo classes e indicações

Este capítulo apresenta as principais classes de psicofármacos que você encontrará na prática clínica. O objetivo não é ensinar prescrição, mas capacitá-lo a compreender o que o psiquiatra está tentando alcançar e quais são os desafios típicos de cada classe.

1. Antidepressivos

O que o psiquiatra busca: Aliviar sintomas depressivos (tristeza, anedonia, fadiga) e/ou ansiosos, restaurando equilíbrio de neurotransmissores.

🔍 Principais subtipos

ISRS (Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina): Primeira linha para depressão e ansiedade. Exemplos comuns: fluoxetina, sertralina, escitalopram.

ISRN (Inibidores de Recaptação de Serotonina e Noradrenalina): Para depressão com fadiga ou dor crônica. Exemplo: venlafaxina, duloxetina.

Outros mecanismos: Bupropiona (aumenta dopamina, útil para motivação), mirtazapina (sedativo, útil para insônia e perda de apetite).

Queixas comuns dos pacientes
Medicamentos mais usados

Náusea intensa com vômitos diários, agitação extrema que impede funcionamento, ideação suicida que piora após início (raro mas possível em jovens nas primeiras semanas), sintomas que não melhoram após 4-6 semanas de uso adequado.

2. Ansiolíticos

O que o psiquiatra busca: Controle rápido de ansiedade aguda ou sintomas físicos de ansiedade.

🔍 Principais subtipos

Benzodiazepínicos: Efeito rápido (30-60 minutos). Alto risco de dependência. Exemplos: clonazepam, alprazolam, diazepam.

Drogas-Z: Hipnóticos para insônia, perfil similar a benzodiazepínicos. Exemplo: zolpidem.

Outros ansiolíticos: Buspirona (efeito mais lento, sem risco de dependência), hidroxizina (anti-histamínico com efeito ansiolítico).

Diferenças importantes

Benzodiazepínicos

Vantagem: Alívio rápido

Risco: Dependência em 2-4 semanas, tolerância, prejuízo de memória

Uso ideal: Curto prazo, crises agudas

Outros ansiolíticos

Vantagem: Sem risco de dependência

Desvantagem: Efeito mais lento (semanas)

Uso ideal: Longo prazo, manutenção

Queixas comuns dos pacientes

Atenção especial: Pacientes que usam benzodiazepínicos por meses/anos frequentemente desenvolvem dependência física. A descontinuação DEVE ser gradual e acompanhada pelo psiquiatra. Parada abrupta pode causar convulsões.

3. Antipsicóticos

O que o psiquiatra busca: Controlar sintomas psicóticos (alucinações, delírios), estabilizar humor em transtorno bipolar, reduzir agitação.

🔍 Principais subtipos

Típicos (mais antigos): Haloperidol, clorpromazina. Mais efeitos motores.

Atípicos (mais modernos): Risperidona, quetiapina, olanzapina, aripiprazol. Menos efeitos motores, mas podem causar ganho de peso e alterações metabólicas.

Queixas comuns dos pacientes
Medicamentos mais usados

Rigidez muscular severa, febre, confusão mental (síndrome neuroléptica maligna - emergência), movimentos involuntários da língua/face, ganho de peso rápido (>5kg em 1 mês), sonolência que impede funcionamento básico.

4. Estabilizadores de humor

O que o psiquiatra busca: Prevenir oscilações de humor (mania e depressão) em transtorno bipolar.

🔍 Principais Medicamentos

Lítio: Padrão-ouro para bipolaridade. Requer monitoramento sanguíneo regular. Quem usa lítio precisa se manter hidratado regularmente pelo risco de intoxicação pelo medicamento.

Anticonvulsivantes: Valproato, lamotrigina, carbamazepina. Também usados para epilepsia.

Antipsicóticos atípicos: Alguns também têm propriedade estabilizadora, como risperidona, quetiapina, olanzapina.

Queixas comuns dos pacientes

Atenção especial: Lítio tem janela terapêutica estreita - a diferença entre dose eficaz e dose tóxica é pequena. Pacientes precisam de exames regulares. Sinais de intoxicação: tremor grosseiro, confusão, vômitos, diarreia. Orientar busca imediata ao médico.

5. Estimulantes (TDAH)

O que o psiquiatra busca: Melhorar atenção, concentração e controle de impulsos em TDAH.

🔍 Principais Medicamentos

Metilfenidato: Liberação imediata ou prolongada (Ritalina, Concerta)

Lisdexanfetamina: Venvanse, Lyberdia (gotas)

Não-estimulantes: Atomoxetina (efeito mais lento, sem risco de abuso), não é tarja preta.

Queixas comuns dos pacientes
Papel do Psicólogo

Trabalhar crenças sobre uso de estimulantes ("se eu fosse normal não precisaria de remédio"), observar mudanças de personalidade ou humor, monitorar padrões de uso (especialmente em adolescentes/adultos jovens - risco de uso recreativo ou compartilhamento).

Visão integrada

Cada classe de medicamento tem suas vantagens e desafios. O psiquiatra escolhe baseado em diagnóstico, sintomas-alvo, histórico de resposta, comorbidades e perfil de efeitos adversos. Seu papel pode ser também ajudar o paciente a navegar a experiência do tratamento, diferenciando o que é esperado do que requer ajuste, facilitando a comunicação quando necessário.

05

Queixas comuns dos pacientes

Interpretando e acolhendo

Pacientes frequentemente relatam desconfortos relacionados à medicação de formas variadas. Nem toda queixa indica necessidade de mudança, mas todas merecem validação e investigação. Este capítulo ajuda você a diferenciar o que é transitório do que requer intervenção.

Queixas nas diferentes fases do tratamento
Fase inicial (primeiras 2-4 semanas)
⏱️ Queixas esperadas
  • "Me sinto pior do que antes": Alguns antidepressivos podem causar agitação ou piora inicial da ansiedade. Geralmente melhora em 1-2 semanas.
  • "Estou com muita náusea": Efeito colateral comum de ISRS. Tomar com alimento pode ajudar. Tende a melhorar com o tempo.
  • "Não durmo/durmo demais": Ajuste esperado. Pode requerer mudança de horário de tomada.
  • "Ainda não sinto nada": Antidepressivos levam 2-4 semanas para efeito terapêutico. Ansiolíticos não-benzodiazepínicos também.
Sua intervenção

Psicoeduque sobre linha do tempo esperada. Valide o desconforto mas encoraje persistência se os sintomas são toleráveis. Oriente contato com psiquiatra se: náusea com vômitos diários, agitação extrema, ideação suicida emergente.

Fase de manutenção (após 2-3 meses)
📊 Queixas frequentes
  • "Não sinto mais prazer sexual": Disfunção sexual afeta 30-40% dos usuários de ISRS. Não melhora espontaneamente na maioria dos casos.
  • "Me sinto 'neutro' demais": Embotamento afetivo. Alguns descrevem como "não sinto alegria nem tristeza".
  • "Engordei muito": Ganho de peso é real com vários antidepressivos e antipsicóticos, não é "falta de força de vontade".
  • "Estou sempre cansado": Fadiga persistente pode ser da medicação ou sintoma residual da depressão.
Sua intervenção

Estas queixas merecem comunicação ao psiquiatra. Pode haver espaço para: ajuste de dose, mudança de medicamento, adição de estratégias adjuvantes. Não minimize ("é melhor do que estar deprimido"). Valide e facilite reavaliação.

Tentativa de descontinuação

Síndrome de Descontinuação é o conjunto de sinais e sintomas físicos e psíquicos que podem surgir após a interrupção abrupta ou redução rápida de um medicamento de uso contínuo devido à adaptação neurobiológica ao fármaco.

Costuma ser autolimitada, mas pode causar desconforto significativo se não houver retirada gradual adequada.

⚠️ Síndrome de descontinuação vs. recaída

Síndrome de Descontinuação (surge em 24-72h):

  • Tontura, "choques cerebrais" (sensações elétricas)
  • Náusea, irritabilidade, insônia
  • Melhora se reintroduzir dose ou reduzir mais devagar

Recaída do Transtorno (surge em 2-6 semanas):

  • Retorno de tristeza persistente, anedonia, ansiedade patológica
  • Não melhora rapidamente ao reintroduzir
  • Significa que a medicação ainda era necessária
Queixas por categoria de medicamento

Antidepressivos

Mais comuns: Disfunção sexual, ganho de peso, embotamento afetivo, insônia ou sonolência

Quando preocupar: Ideação suicida emergente (raro, especialmente em jovens), agitação extrema, sintomas maníacos

Benzodiazepínicos

Mais comuns: Sonolência, problemas de memória, "sensação de anestesiado"

Quando preocupar: Aumento de dose por conta própria, uso além do prescrito, dificuldade de parar, quedas/acidentes (especialmente idosos)

Antipsicóticos

Mais comuns: Ganho de peso, sonolência, rigidez/tremor, inquietação (acatisia)

Quando preocupar: Rigidez extrema com febre, movimentos involuntários da face/língua, confusão mental

Estabilizadores de humor

Mais comuns: Tremor, ganho de peso, lentidão cognitiva, sede/urina excessiva (lítio)

Quando preocupar: Tremor grosseiro, confusão, vômitos/diarreia (toxicidade do lítio), erupções cutâneas severas (lamotrigina) - Pode necessitar Pronto-Socorro.

Estimulantes (TDAH)

Mais comuns: Perda de apetite, insônia, irritabilidade no "crash", aumento de FC

Quando preocupar: Dor no peito, palpitações severas, mudanças drásticas de personalidade, padrões de abuso

Como abordar queixas na sessão

1. Investigue sem pressupor: "Me conta mais sobre isso" é melhor que "Ah, isso é normal do remédio".

2. Contextualize temporalmente: "Quando começou? Mudou alguma coisa na medicação recentemente?"

3. Avalie impacto funcional: "Isso está impedindo você de fazer o quê?"

4. Valide a experiência: "Entendo que isso é desconfortável" antes de "mas às vezes melhora com o tempo".

5. Facilite decisão informada: "Vamos anotar para você conversar com seu psiquiatra? Pode ser que tenha alternativa."

NUNCA minimize queixas ou diminua o trabalho de outro profissional.

Seu papel estratégico

Você é frequentemente o primeiro a ouvir essas queixas. Sua resposta influencia se o paciente: (1) persiste e comunica ao psiquiatra, (2) abandona o tratamento por conta própria, ou (3) sofre em silêncio. Validação + psicoeducação + facilitação de comunicação = melhor desfecho.

06

O processo de descontinuação

Quando e como parar

Na minha opinião: o que não é papel do psicólogo

Cenários comuns de risco:

  • "Estou me sentindo tão bem que acho que não preciso mais do remédio" → Tentação: validar como "evolução". Risco: Paciente pode estar bem justamente por causa da medicação estável.
  • "Você acha que eu deveria conversar com meu psiquiatra sobre parar?" → Tentação: paciente se sente melhor e quer parar o medicamento. Você concorda. Risco: Recaída do quadro, sintomas de descontinuação. Se dúvida, converse com o psiquiatra sobre o plano sobre o medicamento.
  • "Meu psiquiatra não quer tirar o remédio, mas eu confio mais em você" → Tentação: ser "quem escuta" vs. "médico que só quer medicar". Risco: Triangulação que sabota tratamento e coloca paciente em perigo.
O que é o processo de descontinuação na psiquiatria

Descontinuar uma medicação psiquiátrica não é simplesmente "parar de tomar". É um processo técnico que considera:

1. Critérios de elegibilidade

O psiquiatra avalia:

2. Velocidade de redução

Não existe protocolo único. Depende de medicamento, tempo de uso, dose atual e tolerabilidade individual. O processo pode levar de semanas a mais de um ano.

3. Síndrome de descontinuação vs. recaída

Esta é a distinção mais importante que o psiquiatra monitora:

Síndrome de descontinuação

Surge em: 24-72h após redução/parada

Sintomas: Tontura, "choques cerebrais", náusea, irritabilidade, insônia

Resposta: Melhora se reintroduzir dose ou reduzir mais devagar

Significado: Sintomas físicos de retirada, não significa que o transtorno voltou

Recaída do transtorno

Surge em: 2-6 semanas após redução/parada

Sintomas: Retorno de tristeza persistente, anedonia, ansiedade patológica

Resposta: Não melhora rapidamente ao reintroduzir

Significado: A medicação ainda era necessária

Os prejuízos de descontinuação sem acompanhamento
O papel essencial do psicólogo durante a descontinuação

Aqui sim está seu território de atuação.

1. Validação emocional da ambivalência

O processo traz sentimentos complexos: alívio, medo, culpa, ansiedade antecipatória.

Intervenção terapêutica

"É completamente compreensível sentir medo e esperança ao mesmo tempo. Descontinuar não significa que você fracassou se precisar retomar. Significa que estamos testando se esse é o momento certo."

2. Monitoramento fino de sintomas

Você vê o paciente com mais frequência que o psiquiatra. Seu olhar longitudinal captura nuances.

3. Psicoeducação sobre expectativas realistas
4. Fortalecimento de habilidades de enfrentamento

Durante a descontinuação, estratégias terapêuticas precisam estar sólidas:

5. Trabalho com crenças sobre medicação

Muitos pacientes carregam vergonha sobre uso de psicofármacos:

💭 Crenças disfuncionais comuns
  • "Se eu fosse forte de verdade, não precisaria de remédio"
  • "Usar medicação significa que sou fraco/defeituoso"
  • "A terapia só vale se me livrar dos remédios"

Reestruturação: Explorar origens dessas crenças, diferenciar "dependência química" de "necessidade terapêutica", reformular descontinuação não como "cura" mas como "reavaliação contínua das necessidades".

6. Comunicação proativa com o psiquiatra

Seja a ponte, não o filtro:

Integrando papéis: um caso prático

Situação: Mariana, 35 anos, em uso de antidepressivo há 3 anos. Estável há 2 anos. Quer descontinuar porque "se sente artificial".

Papel do psiquiatra: Avalia critérios, propõe cronograma gradual, monitora síndrome de descontinuação e recaída.

Seu papel: Valida o desejo, explora crença de "sentir-se artificial", monitora sintomas semanalmente, reforça habilidades terapêuticas, normaliza desconfortos esperados, alerta quando surgem ruminações que não estavam presentes antes.

Resultado: Após identificar recaída precoce, Mariana decide retornar à dose anterior. Não é fracasso - é autocuidado. Você ajuda a ressignificar: este talvez não seja o momento, e tudo bem.

Mensagem final

Sua atuação não é convencer o paciente a ficar medicado nem a parar. É ajudá-lo a navegar esse processo com consciência, segurança e autoconhecimento. Quando psiquiatra e psicólogo trabalham alinhados, a descontinuação - bem-sucedida ou não - se torna uma oportunidade de aprendizado sobre as necessidades singulares daquele indivíduo.

E se a conclusão for que a medicação de manutenção é necessária? Você tem o privilégio de ajudar o paciente a ressignificar isso não como dependência, mas como cuidado contínuo consigo mesmo.

07

Comunicação com o psiquiatra

Facilitando a colaboração interprofissional

⚠️ Um ponto de partida necessário

Sabemos que, culturalmente, muitas vezes há impasses na comunicação entre psicólogos e psiquiatras. Diferenças de formação, linguagem, expectativas e, por vezes, até disputas de território podem dificultar o diálogo. Mas precisamos trabalhar para vencer essas barreiras em prol do paciente. Este GUIA oferece caminhos práticos para uma comunicação mais fluida, respeitosa e efetiva, reconhecendo que a colaboração interprofissional ainda é um desafio a ser construído diariamente.

Situações que merecem comunicação
Navegando divergências

Às vezes você e o psiquiatra terão visões diferentes sobre o caso. Como lidar:

🤝 Estratégias para divergências
  • Assuma boa-fé
  • Foque no paciente
  • Evite polarização

Sinais de alerta de má prática médica

Na maioria dos casos, divergências são naturais e produtivas. Mas há situações em que você pode precisar orientar o paciente a buscar segunda opinião:

  • Psiquiatra prescreve sem avaliação adequada (por telefone/WhatsApp sem nunca ter visto paciente)
  • Polifarmácia extrema sem justificativa (5+ medicações psicotrópicas simultaneamente)
  • Recusa em ouvir queixas de efeitos adversos sérios
  • Mudanças frequentes e abruptas de medicação sem tempo para avaliar resposta
  • Resistência a encaminhamentos necessários (exames, outras especialidades)

Colaboração que transforma

Quando psicólogo e psiquiatra se comunicam de forma colaborativa, o paciente se beneficia de um cuidado realmente integrado. O psicólogo contribui com uma compreensão profunda do funcionamento global, do contexto de vida e dos padrões relacionais; o psiquiatra agrega o manejo farmacológico, a condução de sintomas agudos e o acompanhamento médico. São perspectivas complementares que, quando alinhadas, ampliam a qualidade e a segurança do tratamento.

Cultivar essa parceria fortalece o trabalho de ambos — e potencializa os resultados terapêuticos.

Continue aprendendo

Este guia é um ponto de partida. O conhecimento em psicofarmacologia está em constante evolução. Mantenha-se atualizado, busque educação continuada e, acima de tudo, continue colocando o cuidado integral ao paciente no centro de sua prática.

Para saber mais sobre o trabalho da autora

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