UM GUIA PARA APLICAÇÃO PRÁTICA
Conceitos essenciais para atuação segura e comunicação qualificada no cuidado integrado
Autora: Erica Maia Alvarez
Médica Psiquiatra | CRM SP 164868 | RQE 64704
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Este conteúdo foi desenvolvido especificamente para profissionais de psicologia e deve ser utilizado exclusivamente para fins educacionais e de aprimoramento profissional.
Para garantir alinhamento interdisciplinar, este e-book contou com a consultoria da psicóloga Aline Boiças Prieto CRP 06/149782, responsável por revisar e contribuir com a adequação dos conteúdos sob a ótica da prática psicológica. As informações relacionadas à prescrição e manejo medicamentoso são de responsabilidade exclusiva da autora, médica psiquiatra.
É importante destacar que a classificação mais atualizada dos psicofármacos, segundo o consenso internacional, está migrando para a Neuroscience-based Nomenclature (NbN), que classifica os medicamentos primariamente pelo mecanismo de ação molecular e não apenas pela indicação clínica.
Psicólogas que trabalham com adultos e estudantes de psicologia
Medicamentos mais amplamente utilizados na prática clínica
Compreensão prática sem excessivo tecnicismo
Sou médica psiquiatra (CRM 164868 | RQE 64704), com mais de 10 anos de experiência em prática clínica, gestão em saúde e liderança em saúde mental. Minha formação inclui formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), além de atuação em supervisão clínica, consultoria psiquiátrica forense e apoio técnico em contextos jurídicos.
Ao longo da minha trajetória, atuei com psiquiatria hospitalar e de urgência/emergência, no cuidado a transtornos graves, dependências e situações de crise, além de desenvolver programas de saúde mental corporativa e consultoria estratégica para serviços de saúde.
Também busquei ampliar minha visão sistêmica do cuidado com um MBA Executivo em Administração em Saúde (FGV) e pós-graduação em Direito e Saúde (Einstein), integrando clínica, ética, gestão e segurança jurídica na tomada de decisões.
Mas, acima de tudo, sou médica de consultório. Atendo pacientes todos os dias e continuo atendendo. Este livro nasce da prática real, da escuta cotidiana e do trabalho lado a lado com outros profissionais de saúde mental. Acredito profundamente na construção de redes de cuidado e na parceria com psicólogos, com diálogo, corresponsabilidade e encaminhamentos qualificados sempre que necessário.
O paciente é — e sempre será — o centro de tudo. É por ele que estudo, escrevo, ensino… e sigo presente na clínica. Até quando Deus permitir, estarei ali.
Compreendendo limites e potencialidades
Como psicólogo, você não prescreve medicamentos. Mas sua atuação é fundamental para o sucesso do tratamento farmacológico. A diferença entre um paciente que adere ao tratamento e outro que abandona frequentemente está na qualidade do suporte psicológico que recebe.
Este guia foi desenvolvido para ajudá-lo a navegar o território da psicofarmacologia com confiança, sem ultrapassar limites éticos, mas aproveitando ao máximo seu papel único no cuidado integral ao paciente.
Você vê o paciente com frequência maior que o psiquiatra. Observa nuances de comportamento, humor e funcionamento que não aparecem em consultas mensais ou bimestrais. Esse olhar longitudinal é ouro para ajustes finos no tratamento. Use-o.
A realidade clínica é que a maioria dos seus pacientes com transtornos mentais moderados a graves estará em uso de medicação psiquiátrica em algum momento do tratamento. Ignorar isso é ignorar uma parte significativa da experiência do paciente.
Cerca de 50% dos pacientes com transtornos mentais não aderem adequadamente à prescrição. Muitas vezes, esse paciente não conta ao psiquiatra que está pulando doses ou tomando "quando sente necessidade". Mas conta a você. Ou demonstra isso indiretamente no processo terapêutico.
A não adesão está associada a pior evolução clínica, aumento de hospitalizações, maior risco de recaídas e impacto negativo na qualidade de vida. Os principais fatores relacionados incluem falta de insight, atitudes negativas em relação ao tratamento, suporte social insuficiente, estigma, efeitos adversos e complexidade do regime terapêutico.
Quando você entende o básico sobre medicações, consegue fazer as perguntas certas, identificar padrões e facilitar uma comunicação que melhora os resultados para todos.
Tratamento integrado não significa concordar com tudo que o psiquiatra faz. Significa compartilhar observações de qualidade que permitam decisões clínicas mais precisas. Veja exemplos:
Comunicação genérica: "Paciente relata que a medicação não está funcionando."
Comunicação qualificada: "Paciente relata melhora inicial do humor nas primeiras 2 semanas, mas há 10 dias voltou a apresentar anedonia acentuada e ruminação noturna. Coincide temporalmente com período de alta demanda no trabalho. Observo também que paciente menciona 'esquecer' a medicação em finais de semana."
A segunda comunicação permite ao psiquiatra diferenciar: dose insuficiente? não-aderência? estressor ambiental sobrepondo efeito da medicação?
Paciente de 28 anos em tratamento para TAG há 6 semanas com escitalopram. Psiquiatra aumentou dose há 2 semanas. Paciente relata em sessão: "estou pior, não aguento mais esses remédios".
Sua investigação revela: Paciente apresenta tremor fino nas mãos (novo), boca seca intensa e náusea matinal. Esses sintomas começaram exatamente 3 dias após aumento de dose.
Sua hipótese informada: Sintomas compatíveis com efeitos colaterais do aumento de dose, não com piora do quadro ansioso. Pode haver espaço para ajuste (redução temporária da dose, mudança de horário, estratégias para náusea).
Resultado: Comunicação ao psiquiatra evita abandono precipitado do tratamento. Ajustes simples resolvem o desconforto.
O olhar atento do psicólogo
A aderência medicamentosa é um desafio silencioso. Estudos indicam que cerca de 50% dos pacientes com transtornos mentais não seguem adequadamente a prescrição, mas essa realidade frequentemente permanece invisível tanto para o prescritor quanto para o psicoterapeuta.
Psicólogos estão em uma posição privilegiada no acompanhamento longitudinal o que os coloca em um lugar estratégico para identificar padrões de não-aderência e facilitar ajustes no tratamento.
Diferentemente do psiquiatra, que pode perguntar diretamente sobre o uso da medicação, você frequentemente capta sinais indiretos:
Compreender a cronologia básica de resposta evita interpretações precipitadas. Como regra geral:
Antidepressivos
Efeitos colaterais iniciais: 3-7 dias
Melhora terapêutica esperada: 2-4 semanas
Resposta completa: 6-8 semanas
Se após 8 semanas não há nenhuma melhora, questione aderência antes de questionar o diagnóstico.
Sedação e efeitos motores: Horas a dias
Redução de sintomas positivos: 1-2 semanas
Estabilização completa: 4-6 semanas
Efeito ansiolítico: Imediato (30-60 minutos)
Tolerância e dependência: 2-4 semanas de uso contínuo
Em vez de confrontar ("Você está tomando a medicação?"), explore:
Sua comunicação com o psiquiatra será mais efetiva se incluir:
Evite: "Paciente queixa-se da medicação"
Prefira: "Paciente relata sonolência intensa que interfere no trabalho desde início do medicamento X há 3 semanas"
Exemplo: "Irritabilidade aumentou 2 semanas após introdução de Y" ajuda a diferenciar efeito paradoxal de progressão do quadro
Exemplo: "Tremor fino impede paciente de realizar atividade profissional (design gráfico)" contextualiza a severidade
Exemplo: "Paciente demonstra vergonha de tomar medicação em público, o que interfere na aderência no trabalho"
Quando suspender o julgamento
É tentador questionar o diagnóstico ou tratamento psiquiátrico quando não vemos melhora. E isso pode ter um impacto negativo tremendo no vínculo do paciente com o médico e, consequentemente, no sucesso do tratamento. Antes, considere:
A colaboração entre psicologia e psiquiatria não significa concordar sempre, mas sim compartilhar observações de qualidade que permitam decisões clínicas mais precisas. Seu olhar sobre o funcionamento global do paciente, quando articulado com dados sobre cronologia e padrões, torna-se uma ferramenta poderosa para o cuidado integral.
O que o psicólogo precisa saber
Você não precisa dominar farmacologia, mas entender o básico sobre como medicamentos funcionam transforma sua capacidade de interpretar queixas e apoiar o tratamento e a melhora do seu paciente.
Compreender como o medicamento se movimenta no organismo ajuda você a interpretar queixas do paciente e comunicá-las adequadamente ao psiquiatra.
O que acontece: O medicamento entra na corrente sanguínea após ser ingerido.
O que o paciente pode relatar:
Relevância clínica: Se o paciente vomita logo após tomar, pode não estar absorvendo adequadamente.
O que acontece: O medicamento viaja pelo sangue até chegar ao cérebro.
O que o paciente pode relatar:
Relevância clínica: Ajuda a diferenciar efeito placebo de efeito real.
O que acontece: O fígado processa o medicamento. Aqui está o segredo de por que "cada corpo reage diferente".
O que o paciente pode relatar:
Relevância clínica: Efeitos intensos em doses baixas podem indicar metabolização lenta. Ausência de resposta em doses altas pode ser metabolização rápida.
O que acontece: Os rins removem o medicamento do corpo.
O que o paciente pode relatar:
Relevância clínica: Explica por que alguns pacientes têm síndrome de descontinuação severa e outros não.
Entender os principais neurotransmissores ajuda a conectar queixas do paciente com mecanismos de ação:
Regula: Humor, sono, apetite, impulso
Na prática: ISRS aumentam serotonina disponível. Se paciente relata piora da insônia ou mudanças no apetite, pode ser efeito do ajuste serotoninérgico.
Regula: Motivação, prazer, movimento
Na prática: Antipsicóticos bloqueiam dopamina (podem causar apatia). Bupropiona aumenta dopamina (ajuda motivação, mas pode causar agitação).
Regula: Alerta, energia, atenção
Na prática: Se paciente está mais "ligado" ou com pressão aumentada, pode ser efeito noradrenérgico. Útil para depressão com fadiga.
Regula: Relaxamento, redução da ansiedade
Na prática: Benzodiazepínicos aumentam GABA (efeito ansiolítico rápido). Sonolência ou "memória ruim" = efeito GABAérgico excessivo.
Regula: Memória, atenção
Na prática: Alguns antidepressivos antigos bloqueiam acetilcolina causando boca seca, constipação, confusão mental em idosos.
O cérebro precisa de tempo para ajustar seus receptores às mudanças químicas. A titulação gradual permite:
Paciente relata: "O antidepressivo não está fazendo nada" após 1 semana.
Seu conhecimento farmacológico diz: Absorção e distribuição acontecem rapidamente, mas o efeito terapêutico depende de neuroplasticidade (adaptação dos receptores), que leva 2-4 semanas.
Sua intervenção: Normalize essa experiência e encoraje continuidade, explicando a linha do tempo esperada.
Paciente relata: Extremamente sonolento após início de antipsicótico.
Seu conhecimento farmacológico diz: Alguns antipsicóticos causam sedação além do efeito principal. É esperado e pode diminuir com tempo ou requerer ajuste.
Sua intervenção: Informe ao psiquiatra a intensidade e o impacto funcional. Pode haver espaço para ajuste de dose ou horário.
Paciente relata: "Memória ruim" após começar benzodiazepínico.
Seu conhecimento farmacológico diz: GABA em excesso prejudica consolidação de memória. Não é demência, é efeito dose-dependente.
Sua intervenção: Tranquilize o paciente e comunique ao psiquiatra para possível ajuste.
Você não precisa prescrever, mas entender como e quando os medicamentos agem transforma sua capacidade de apoiar o tratamento integrado. Use esse conhecimento para fazer perguntas melhores, interpretar queixas com mais precisão e colaborar de forma mais efetiva com o psiquiatra.
Entendendo classes e indicações
Este capítulo apresenta as principais classes de psicofármacos que você encontrará na prática clínica. O objetivo não é ensinar prescrição, mas capacitá-lo a compreender o que o psiquiatra está tentando alcançar e quais são os desafios típicos de cada classe.
O que o psiquiatra busca: Aliviar sintomas depressivos (tristeza, anedonia, fadiga) e/ou ansiosos, restaurando equilíbrio de neurotransmissores.
ISRS (Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina): Primeira linha para depressão e ansiedade. Exemplos comuns: fluoxetina, sertralina, escitalopram.
ISRN (Inibidores de Recaptação de Serotonina e Noradrenalina): Para depressão com fadiga ou dor crônica. Exemplo: venlafaxina, duloxetina.
Outros mecanismos: Bupropiona (aumenta dopamina, útil para motivação), mirtazapina (sedativo, útil para insônia e perda de apetite).
Náusea intensa com vômitos diários, agitação extrema que impede funcionamento, ideação suicida que piora após início (raro mas possível em jovens nas primeiras semanas), sintomas que não melhoram após 4-6 semanas de uso adequado.
O que o psiquiatra busca: Controle rápido de ansiedade aguda ou sintomas físicos de ansiedade.
Benzodiazepínicos: Efeito rápido (30-60 minutos). Alto risco de dependência. Exemplos: clonazepam, alprazolam, diazepam.
Drogas-Z: Hipnóticos para insônia, perfil similar a benzodiazepínicos. Exemplo: zolpidem.
Outros ansiolíticos: Buspirona (efeito mais lento, sem risco de dependência), hidroxizina (anti-histamínico com efeito ansiolítico).
Vantagem: Alívio rápido
Risco: Dependência em 2-4 semanas, tolerância, prejuízo de memória
Uso ideal: Curto prazo, crises agudas
Vantagem: Sem risco de dependência
Desvantagem: Efeito mais lento (semanas)
Uso ideal: Longo prazo, manutenção
Atenção especial: Pacientes que usam benzodiazepínicos por meses/anos frequentemente desenvolvem dependência física. A descontinuação DEVE ser gradual e acompanhada pelo psiquiatra. Parada abrupta pode causar convulsões.
O que o psiquiatra busca: Controlar sintomas psicóticos (alucinações, delírios), estabilizar humor em transtorno bipolar, reduzir agitação.
Típicos (mais antigos): Haloperidol, clorpromazina. Mais efeitos motores.
Atípicos (mais modernos): Risperidona, quetiapina, olanzapina, aripiprazol. Menos efeitos motores, mas podem causar ganho de peso e alterações metabólicas.
Rigidez muscular severa, febre, confusão mental (síndrome neuroléptica maligna - emergência), movimentos involuntários da língua/face, ganho de peso rápido (>5kg em 1 mês), sonolência que impede funcionamento básico.
O que o psiquiatra busca: Prevenir oscilações de humor (mania e depressão) em transtorno bipolar.
Lítio: Padrão-ouro para bipolaridade. Requer monitoramento sanguíneo regular. Quem usa lítio precisa se manter hidratado regularmente pelo risco de intoxicação pelo medicamento.
Anticonvulsivantes: Valproato, lamotrigina, carbamazepina. Também usados para epilepsia.
Antipsicóticos atípicos: Alguns também têm propriedade estabilizadora, como risperidona, quetiapina, olanzapina.
Atenção especial: Lítio tem janela terapêutica estreita - a diferença entre dose eficaz e dose tóxica é pequena. Pacientes precisam de exames regulares. Sinais de intoxicação: tremor grosseiro, confusão, vômitos, diarreia. Orientar busca imediata ao médico.
O que o psiquiatra busca: Melhorar atenção, concentração e controle de impulsos em TDAH.
Metilfenidato: Liberação imediata ou prolongada (Ritalina, Concerta)
Lisdexanfetamina: Venvanse, Lyberdia (gotas)
Não-estimulantes: Atomoxetina (efeito mais lento, sem risco de abuso), não é tarja preta.
Trabalhar crenças sobre uso de estimulantes ("se eu fosse normal não precisaria de remédio"), observar mudanças de personalidade ou humor, monitorar padrões de uso (especialmente em adolescentes/adultos jovens - risco de uso recreativo ou compartilhamento).
Cada classe de medicamento tem suas vantagens e desafios. O psiquiatra escolhe baseado em diagnóstico, sintomas-alvo, histórico de resposta, comorbidades e perfil de efeitos adversos. Seu papel pode ser também ajudar o paciente a navegar a experiência do tratamento, diferenciando o que é esperado do que requer ajuste, facilitando a comunicação quando necessário.
Interpretando e acolhendo
Pacientes frequentemente relatam desconfortos relacionados à medicação de formas variadas. Nem toda queixa indica necessidade de mudança, mas todas merecem validação e investigação. Este capítulo ajuda você a diferenciar o que é transitório do que requer intervenção.
Psicoeduque sobre linha do tempo esperada. Valide o desconforto mas encoraje persistência se os sintomas são toleráveis. Oriente contato com psiquiatra se: náusea com vômitos diários, agitação extrema, ideação suicida emergente.
Estas queixas merecem comunicação ao psiquiatra. Pode haver espaço para: ajuste de dose, mudança de medicamento, adição de estratégias adjuvantes. Não minimize ("é melhor do que estar deprimido"). Valide e facilite reavaliação.
Síndrome de Descontinuação é o conjunto de sinais e sintomas físicos e psíquicos que podem surgir após a interrupção abrupta ou redução rápida de um medicamento de uso contínuo devido à adaptação neurobiológica ao fármaco.
Costuma ser autolimitada, mas pode causar desconforto significativo se não houver retirada gradual adequada.
Síndrome de Descontinuação (surge em 24-72h):
Recaída do Transtorno (surge em 2-6 semanas):
Mais comuns: Disfunção sexual, ganho de peso, embotamento afetivo, insônia ou sonolência
Quando preocupar: Ideação suicida emergente (raro, especialmente em jovens), agitação extrema, sintomas maníacos
Mais comuns: Sonolência, problemas de memória, "sensação de anestesiado"
Quando preocupar: Aumento de dose por conta própria, uso além do prescrito, dificuldade de parar, quedas/acidentes (especialmente idosos)
Mais comuns: Ganho de peso, sonolência, rigidez/tremor, inquietação (acatisia)
Quando preocupar: Rigidez extrema com febre, movimentos involuntários da face/língua, confusão mental
Mais comuns: Tremor, ganho de peso, lentidão cognitiva, sede/urina excessiva (lítio)
Quando preocupar: Tremor grosseiro, confusão, vômitos/diarreia (toxicidade do lítio), erupções cutâneas severas (lamotrigina) - Pode necessitar Pronto-Socorro.
Mais comuns: Perda de apetite, insônia, irritabilidade no "crash", aumento de FC
Quando preocupar: Dor no peito, palpitações severas, mudanças drásticas de personalidade, padrões de abuso
1. Investigue sem pressupor: "Me conta mais sobre isso" é melhor que "Ah, isso é normal do remédio".
2. Contextualize temporalmente: "Quando começou? Mudou alguma coisa na medicação recentemente?"
3. Avalie impacto funcional: "Isso está impedindo você de fazer o quê?"
4. Valide a experiência: "Entendo que isso é desconfortável" antes de "mas às vezes melhora com o tempo".
5. Facilite decisão informada: "Vamos anotar para você conversar com seu psiquiatra? Pode ser que tenha alternativa."
NUNCA minimize queixas ou diminua o trabalho de outro profissional.
Você é frequentemente o primeiro a ouvir essas queixas. Sua resposta influencia se o paciente: (1) persiste e comunica ao psiquiatra, (2) abandona o tratamento por conta própria, ou (3) sofre em silêncio. Validação + psicoeducação + facilitação de comunicação = melhor desfecho.
Quando e como parar
Cenários comuns de risco:
Descontinuar uma medicação psiquiátrica não é simplesmente "parar de tomar". É um processo técnico que considera:
O psiquiatra avalia:
Não existe protocolo único. Depende de medicamento, tempo de uso, dose atual e tolerabilidade individual. O processo pode levar de semanas a mais de um ano.
Esta é a distinção mais importante que o psiquiatra monitora:
Surge em: 24-72h após redução/parada
Sintomas: Tontura, "choques cerebrais", náusea, irritabilidade, insônia
Resposta: Melhora se reintroduzir dose ou reduzir mais devagar
Significado: Sintomas físicos de retirada, não significa que o transtorno voltou
Surge em: 2-6 semanas após redução/parada
Sintomas: Retorno de tristeza persistente, anedonia, ansiedade patológica
Resposta: Não melhora rapidamente ao reintroduzir
Significado: A medicação ainda era necessária
Aqui sim está seu território de atuação.
O processo traz sentimentos complexos: alívio, medo, culpa, ansiedade antecipatória.
"É completamente compreensível sentir medo e esperança ao mesmo tempo. Descontinuar não significa que você fracassou se precisar retomar. Significa que estamos testando se esse é o momento certo."
Você vê o paciente com mais frequência que o psiquiatra. Seu olhar longitudinal captura nuances.
Durante a descontinuação, estratégias terapêuticas precisam estar sólidas:
Muitos pacientes carregam vergonha sobre uso de psicofármacos:
Reestruturação: Explorar origens dessas crenças, diferenciar "dependência química" de "necessidade terapêutica", reformular descontinuação não como "cura" mas como "reavaliação contínua das necessidades".
Seja a ponte, não o filtro:
Situação: Mariana, 35 anos, em uso de antidepressivo há 3 anos. Estável há 2 anos. Quer descontinuar porque "se sente artificial".
Papel do psiquiatra: Avalia critérios, propõe cronograma gradual, monitora síndrome de descontinuação e recaída.
Seu papel: Valida o desejo, explora crença de "sentir-se artificial", monitora sintomas semanalmente, reforça habilidades terapêuticas, normaliza desconfortos esperados, alerta quando surgem ruminações que não estavam presentes antes.
Resultado: Após identificar recaída precoce, Mariana decide retornar à dose anterior. Não é fracasso - é autocuidado. Você ajuda a ressignificar: este talvez não seja o momento, e tudo bem.
Sua atuação não é convencer o paciente a ficar medicado nem a parar. É ajudá-lo a navegar esse processo com consciência, segurança e autoconhecimento. Quando psiquiatra e psicólogo trabalham alinhados, a descontinuação - bem-sucedida ou não - se torna uma oportunidade de aprendizado sobre as necessidades singulares daquele indivíduo.
E se a conclusão for que a medicação de manutenção é necessária? Você tem o privilégio de ajudar o paciente a ressignificar isso não como dependência, mas como cuidado contínuo consigo mesmo.
Facilitando a colaboração interprofissional
Sabemos que, culturalmente, muitas vezes há impasses na comunicação entre psicólogos e psiquiatras. Diferenças de formação, linguagem, expectativas e, por vezes, até disputas de território podem dificultar o diálogo. Mas precisamos trabalhar para vencer essas barreiras em prol do paciente. Este GUIA oferece caminhos práticos para uma comunicação mais fluida, respeitosa e efetiva, reconhecendo que a colaboração interprofissional ainda é um desafio a ser construído diariamente.
Às vezes você e o psiquiatra terão visões diferentes sobre o caso. Como lidar:
Sinais de alerta de má prática médica
Na maioria dos casos, divergências são naturais e produtivas. Mas há situações em que você pode precisar orientar o paciente a buscar segunda opinião:
Quando psicólogo e psiquiatra se comunicam de forma colaborativa, o paciente se beneficia de um cuidado realmente integrado. O psicólogo contribui com uma compreensão profunda do funcionamento global, do contexto de vida e dos padrões relacionais; o psiquiatra agrega o manejo farmacológico, a condução de sintomas agudos e o acompanhamento médico. São perspectivas complementares que, quando alinhadas, ampliam a qualidade e a segurança do tratamento.
Cultivar essa parceria fortalece o trabalho de ambos — e potencializa os resultados terapêuticos.
Este guia é um ponto de partida. O conhecimento em psicofarmacologia está em constante evolução. Mantenha-se atualizado, busque educação continuada e, acima de tudo, continue colocando o cuidado integral ao paciente no centro de sua prática.
Para saber mais sobre o trabalho da autora