Guia diagnóstico essencial
Um guia prático baseado em evidências para diferenciar o burnout de outras condições clínicas e estabelecer diagnósticos precisos
Autora: Erica Maia Alvarez
Médica Psiquiatra | CRM SP 164868 | RQE 64704
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Médica Psiquiatra
Dra. Erica Maia Alvarez é médica psiquiatra com mais de 10 anos de experiência integrando prática clínica, gestão em saúde e liderança em saúde mental. Possui formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e atua também em supervisão clínica e consultoria psiquiátrica forense em contextos jurídicos.
Com MBA Executivo em Gestão em Saúde (FGV) e especialização em Direito e Saúde (Einstein), alia sólida formação médica a uma visão estratégica e ética do cuidado. Sua trajetória inclui atuação em internação e pronto-socorro psiquiátrico, tratamento de dependências, desenvolvimento de programas de saúde mental corporativa e consultoria estratégica para organizações de saúde.
Seu trabalho integra psiquiatria, direito e gestão para oferecer soluções técnicas, seguras e equilibradas no cuidado em saúde mental.
Registro profissional: CRM SP 164868 | Registro de especialista: RQE 64704
O burnout se tornou uma palavra da moda, usada para descrever qualquer situação de cansaço ou estresse no trabalho. Mas a realidade é que a maioria das pessoas - e até mesmo alguns profissionais - cometem erros graves na identificação dessa condição. O resultado? Diagnósticos incorretos, tratamentos inadequados e a perpetuação de um problema que poderia ser resolvido de forma mais eficaz.
O diagnóstico errado de burnout desencadeia uma cascata de consequências que vai muito além do indivíduo. Primeiro que quando rotulamos incorretamente como burnout o que na verdade é depressão, transtorno de ansiedade ou outras condições psiquiátricas, privamos a pessoa do tratamento adequado - medicamentos, terapias específicas ou intervenções médicas que poderiam resolver o problema de forma eficaz.
Enquanto isso, o verdadeiro transtorno mental permanece não tratado, agravando-se progressivamente.
Paralelamente, casos reais de burnout passam despercebidos porque perdemos a credibilidade do diagnóstico - quando "todo mundo tem burnout", ninguém leva a sério os ambientes de trabalho genuinamente tóxicos que precisam de intervenção urgente. O resultado final é um ciclo vicioso: pessoas doentes sem tratamento adequado, empresas desperdiçando recursos em soluções erradas e ambientes de trabalho realmente problemáticos continuando a adoecer funcionários porque o alarme perdeu sua eficácia.
Este guia vai te ensinar qual é o passo a passo para o diagnóstico de burnout baseado nas diretrizes oficiais da CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), no DSM-5-TR e na literatura médica. Você aprenderá a diferenciar o burnout de outras condições que podem parecer similares e entenderá por que é tão importante fazer essa distinção corretamente.
O esgotamento ("burnout") é uma síndrome conceituada como resultante de estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi bem manejado. É caracterizada por três dimensões:
Uma profunda depleção dos recursos energéticos
Ou sentimentos negativos ou cínicos relacionados ao trabalho
Redução da capacidade de desempenho e realização profissional
O diagnóstico de burnout exclui automaticamente as seguintes condições:
Aqui está onde a maioria das pessoas comete o primeiro erro: assumir que cansaço e estresse no trabalho é igual a burnout. Na verdade, várias outras condições podem produzir sintomas similares e precisam ser descartadas primeiro através de seus critérios diagnósticos específicos.
Ansiedade e preocupação excessivas por pelo menos 6 meses sobre diversos eventos ou atividades
Dificuldade em controlar a preocupação
Pelo menos três dos seguintes sintomas: inquietação/agitação, fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular, perturbação do sono
Os sintomas causam sofrimento significativo ou prejuízo funcional
Não é melhor explicado por outro transtorno mental
Os sintomas não são devidos a efeitos de substâncias ou condições médicas
Ataques de pânico recorrentes e inesperados (pico de medo intenso com pelo menos 4 sintomas físicos/cognitivos)
Pelo menos um ataque seguido per 1 mês ou mais de: preocupação persistente sobre ataques adicionais OU mudança comportamental mal-adaptativa relacionada aos ataques
Os ataques não são devidos a efeitos de substâncias ou condições médicas
Os ataques não são melhor explicados por outro transtorno mental
Medo ou ansiedade acentuados sobre objeto ou situação específica
O objeto/situação fóbica quase sempre provoca medo imediato
Evitação ativa ou suportada com intenso medo
O medo é desproporcional ao perigo real
Duração mínima de 6 meses
Causa sofrimento significativo ou prejuízo funcional
Não é melhor explicado por outro transtorno mental
Cinco ou mais dos seguintes sintomas por pelo menos 2 semanas (deve incluir humor deprimido OU perda de interesse):
Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional
Os sintomas não são devidos a efeitos de substâncias ou condições médicas
Não há histórico de episódios maníacos ou hipomaníacos
Não é melhor explicado por transtornos do espectro esquizofrênico
Exposição a morte real/ameaça, lesão grave ou violência sexual através de: experiência direta, testemunho, conhecimento de ocorrência com pessoa próxima, ou exposição repetida/extrema a detalhes aversivos
Presença de sintomas específicos em quatro categorias:
Duração superior a 1 mês
Causa sofrimento significativo ou prejuízo funcional
Não é devido a efeitos de substâncias ou condições médicas
Exposição a trauma (mesmo critério A do TEPT)
Nove ou mais sintomas de cinco categorias: intrusão, humor negativo, dissociação, evitação, excitação
Duração de 3 dias a 1 mês após o trauma
Causa sofrimento significativo ou prejuízo funcional
Não é devido a efeitos de substâncias, condições médicas, ou outros transtornos mentais
Existe uma condição que frequentemente é confundida com burnout: o transtorno de ajustamento (relacionado ao trabalho).
Critério A: Desenvolvimento de sintomas emocionais ou comportamentais em resposta a um ou mais estressores psicossociais identificáveis
Critério B: Os sintomas se desenvolvem dentro de 1 mês da exposição ao estressor
Critério C: Os sintomas ou comportamentos são clinicamente significativos, evidenciados por: sofrimento desproporcional à gravidade/intensidade do estressor OU prejuízo significativo no funcionamento
Critério D: Os sintomas não persistem por mais de 6 meses adicionais após o término do estressor (ou suas consequências)
Critério E: Os sintomas não são melhor explicados por outro transtorno mental e não representam luto normal
Critério F: Os sintomas não são devidos a efeitos de substâncias ou condições médicas
Aqui chegamos ao ponto mais complexo e mais mal compreendido: não basta ter sintomas relacionados ao trabalho para ter burnout. É necessário comprovar que existe um nexo de causalidade entre o ambiente de trabalho e os sintomas.
Segundo a Resolução CFM nº 2.323/2022, para que um médico (exceto perito médico federal) possa atestar burnout ou qualquer agravo "relacionado ao trabalho", é obrigatório o estudo prévio do ambiente e da organização do trabalho do paciente para comprovação do nexo de causalidade.
Estabelece que médicos devem observar os preceitos desta resolução ao atestar doenças relacionadas ao trabalho.
Define que o estudo do ambiente e organização do trabalho deve se apoiar em:
Análise de dados epidemiológicos da organização sobre ocorrência de quadros clínicos ou subclínicos em trabalhadores expostos a riscos semelhantes
Levantamento completo do histórico profissional do trabalhador
Análise minuciosa do ambiente e processo de trabalho
Mapeamento específico de fatores de risco ocupacionais presentes
Análise da correlação temporal entre exposição e início dos sintomas
Avaliação da plausibilidade biológica da relação causa-efeito
Exclusão de outras causas não ocupacionais
Análise de dados epidemiológicos da organização sobre ocorrência de quadros clínicos ou subclínicos em trabalhadores expostos a riscos semelhantes
Avaliação de indicadores de saúde ocupacional da empresa
Comparação com estatísticas do setor econômico
Identificação de padrões de adoecimento na população exposta
Levantamento completo do histórico profissional do trabalhador
Análise minuciosa do ambiente e processo de trabalho
Mapeamento específico de fatores de risco ocupacionais presentes
Análise da correlação temporal entre exposição e início dos sintomas
Avaliação da plausibilidade biológica da relação causa-efeito
Exclusão de outras causas não ocupacionais
O processo real envolve:
Consideração de múltiplas variáveis simultâneas
Correlação precisa entre exposição e sintomas
Descarte sistemático de outras causas
Documentação concreta das condições de trabalho
Confirmação por múltiplas fontes independentes
Padrões de adoecimento na população exposta
Inspeção física do local de trabalho
Medição de fatores ambientais (ruído, temperatura, ergonomia)
Análise da organização do trabalho
Verificação de equipamentos de proteção
Taxa de absenteísmo por setor
Índices de rotatividade
Registros de afastamentos médicos
Pesquisas de clima organizacional
Comparação com benchmarks do setor
Avaliação médica detalhada
Exames complementares quando necessários
Avaliação psicológica/psiquiátrica
Correlação entre sintomas e exposição
Independente de ser burnout ou outra condição, você deve buscar ajuda profissional se:
Os sintomas persistem por mais de 2 semanas
Há prejuízo significativo no trabalho, vida pessoal ou relacionamentos
Existe ideação suicida ou pensamentos de morte
Você está usando álcool ou outras substâncias para lidar
Sintomas físicos significativos (insônia grave, dores, problemas gastrointestinais)
Isolamento social progressivo
Como evitar: Sempre busque avaliação com profissional qualificado. Os sintomas podem ter múltiplas causas.
Como evitar: Faça check-up médico completo antes de assumir que é apenas estresse do trabalho.
Como evitar: Avalie honestamente todos os aspectos da sua vida, não apenas o trabalho.
Como evitar: Busque ajuda precocemente. Quanto mais cedo o tratamento, melhor o prognóstico.
Como evitar: Se você tem um transtorno mental subjacente, ele seguirá você para o próximo emprego.
O diagnóstico correto de burnout não é uma questão de preciosismo médico - é uma questão de justiça para o paciente e efetividade do tratamento. Quando diagnosticamos erroneamente como burnout algo que é na verdade depressão, ansiedade ou outra condição, estamos negando ao paciente o tratamento que ele realmente precisa.
Por outro lado, quando diagnosticamos corretamente o burnout, abrimos caminho para intervenções realmente efetivas: mudanças no ambiente de trabalho, ajustes organizacionais, e suporte adequado que podem fazer diferença real na vida da pessoa.
O objetivo deste guia não é desencorajar pessoas a buscarem ajuda, mas sim garantir que quando você buscar, receba o diagnóstico correto e, consequentemente, o tratamento adequado. Não tenha medo de questionar, de buscar segunda opinião, de exigir que seu médico explique como chegou àquele diagnóstico.